domingo, 27 de fevereiro de 2022

27 DE FEVEREIRO / MORRE ZENO CARDOSO NUNES

 



No dia 27 de fevereiro de 2011 faleceu o poeta Zeno Cardoso Nunes. Zeno nasceu em 15 de agosto de 1917 sendo natural de São Francisco de Paula e foi, por duas gestões, presidente da Estância da Poesia Crioula. Ocupava a cadeira 27 da Academia Rio-Grandense de Letras. Autor de diversos livros, escreveu, juntamente com seu mano Rui Cardoso Nunes, o Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul, um dos livros gauchescos mais vendidos de nossa terra. Destacava-se, entre centenas de belíssimos poemas de sua marca, o conhecidíssimo Briga de Touros: ...Dentre aquela sentida orquestração / destacou-se um mugido forte e grosso / que reboou plangente no rincão: / Era o berro do touro brasileiro/lamentando o destino do estrangeiro / que quisera ser dono do seu chão.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

22 DE FEVEREIRO - NASCE AURELIANO

 

Num dia 22 de fevereiro, do ano de 1845, David Canabarro promove uma reunião do Conselho dos Generais Farroupilhas, em Ponche Verde, Dom Pedrito, para tratar do prosseguimento ou não da Guerra dos Farrapos quando se resolve pelo fim da contenda.

Também num dia 22 de fevereiro, do ano de 1904nascia em Quarai o grande Poeta Juca Ruivo e neste dia, no ano de 1983, morria, em Porto Alegre, o também poeta Pery de Castro, fundador e Presidente da Estância da Poesia Crioula.

Outro poeta falecido neste dia e mês, no ano de 1959, foi Aureliano de Figueiredo Pinto, indiscutivelmente, um dos maiores vates nativistas de nossa terra, de todos os tempos.

Aureliano de Figueiredo Pinto

Com seu vigoroso regionalismo, o nosso idioma, longe de empobrecer-se, adquiriu novas e cintilantes riquezas. Seus poemas, nascidos das vivências campeiras, com invernos, tropeadas, rondas, noites longas, chimarrão, e outros temas rudes e belos. São sempre, impregnados de comovente humanismo e iluminados pelo sol de sua fulgurante cultura.

A poesia de Aureliano Figueiredo Pinto, profundamente ligada a terra, tem uma extraordinária densidade humana, assumindo sua temática, em muitos passos, o sentido de um canto geral que transcende o mero regionalismo. Poucos livros refletem com mais autenticidade o homem e a paisagem do Rio Grande do que estes “Romances de Estância e Querência”.

Aureliano de Figueiredo Pinto nasceu em 1º de agosto de 1898, na fazenda São Domingos, município de Tupanciretã, filho de Domingos José Pinto e de Marfisa Figueiredo Pinto. Exerceu o ofício de médico, mas por essência foi poeta e escritor.

O processo de alfabetização inicia-se em 1904 quando recebeu aulas de sua mãe, quatro anos depois no colégio Santa Maria em Santa Maria, seguiu seus estudos, de onde enviou a sua mãe seus primeiros poemas. Aureliano inicia ali seu martírio, sua ressurreição e sua glória: escrever.

Aos 17 anos, nasceu uma grande amizade com Antero Marques. Antero seria, pela vida afora companheiro, crítico e confidente a dividir aulas, pensões, ruas, e uma infinidade de cartas. Iniciam as discussões políticas, literárias e filosóficas, que os levariam a participar da Revolução de 30.

Passou a residir em Porto Alegre 3 anos mais tarde, onde prepara o vestibular para Direito, que trocaria mais tarde pela Medicina. Os poemas escritos em meio às anotações escolares antecediam sua estreia com poemas publicados no jornal Correio do Povo, com pseudônimo e nome próprio e nas revistas Kodak e A Máscara, um ano mais tarde. Amigos passam a classificar seus poemas entre as correntes simbolista e parnasiana. Entre as anotações de aula, Aureliano escreve o poema Gaudério, que marcaria sua vinculação com o nativismo. Anos depois, Gaudério e Toada de Ronda seriam musicados por João Fischer. Segundo testemunhas de Antero Marques, Raul Bopp, entusiasmado com a produção do poeta diria que “Bilac assinaria estes versos” O poema Toada de Ronda é considerado o marco inicial da poesia nativista no Rio Grande do Sul.

Em 1924, parte para o Rio de Janeiro estudar Medicina, lá cursa o primeiro e o segundo ano e retorna a Porto Alegre. Lê Paja Brava, do Viejo Pancho, que marcará sua produção artística, e também livros de poetas regionalistas uruguaios e argentinos, que o influencia a escrever poemas em espanhol. Em 1926, volta aos estudos de Medicina no Rio de Janeiro, mas no mesmo ano retorna a Porto Alegre. Somente em 1931, conclui o curso de Medicina, e logo abre seu consultório em Santiago. Abre o coração aos campos e aos tipos humanos que o povoam. A partir dali o trabalho de médico rouba-lhe o tempo de leitura e criação. Passa a fazer viagens ao interior do município, atendendo a chamados médicos e fica com os peões tomando mate e ouvindo causos.

Três anos mais tarde por falta de dinheiro dos clientes para compra de remédio, suas práticas médicas são interrompidas. Aureliano cria um código que é colocado nas receitas, para que fossem debitadas para alguns de seus amigos. Nessa época, seus poemas são datilografados por Túlio Piva, para quem produz textos para serem lidos na rádio local.

Em 1937, já com quase 40 anos, passa a dirigir o Posto de Higiene de Santiago. Anos mais tarde, seria o fundador do Hospital de Caridade. Casa com Zilah Lopes, em 29 de dezembro de 1938 com que tem 3 filhos.

Em 1941, troca Santiago por Porto Alegre, assume a subchefia da Casa Civil do interventor Cordeiro de Farias. Fica poucos meses no cargo e retorna a Santiago.

Em 1956 inicia a reunir e selecionar seus poemas, espalhados entre amigos, para publicá-los em livros. Seu filho José Antônio vai à Editora Globo e ali espera até ter em mãos dez volumes de Romances de Estância e Querência – Marcas do Tempo o primeiro livro publicado de Aureliano de Figueiredo Pinto. Aureliano vem a falecer em 22 de fevereiro de 1959 com câncer.

Em 1963, é publicado “Ad Sodalibus” pela Livraria Sulina, seu segundo livro de poesias Romances de Estância e Querência – Armorial de Estância e Outros Poemas. Em 1974, é publicada pela Editora Movimento, a novela Memórias do Coronel Falcão. Em 1975, Noel Guarany recebe autorização dos familiares do poeta para musicar Bisneto de Farroupilha e Canto do Guri Campeiro.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

ESTÂNCIA DA POESIA CRIOULA


POETAS FUNDADORES


ADILZA LAYDNER DE CASTRO


Poetisa lírica e regionalista, primorosa sonetista, trovadora, contista, musicista e cantora.

Nome Literário: Nilza Castro

Nasceu em Santa Maria, RS, 23/04/1911

Faleceu em Porto Alegre, RS, 1°/04/2002

Era casada com a Poeta Pery de Castro e eram considerados, ela, a Matriarca e ele, o Patriarca da Estância da Poesia Crioula. A entidade organiza um Concurso Nacional de Sonetos que leva o seu nome.

Pertenceu a diversas entidades culturais, entre as quais: União Brasileira de Trovadores, Grêmio Literário Castro Alves, Associação Santa Mariense de Letras e Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB).

É autora de uma série de músicas e letras regionalistas.

Colaborou no Correio do Povo e em vários jornais e revistas do País.

Tem participações em antologias e coletâneas de entidades culturais e citações em obras literárias e na imprensa.

OBRAS: Na Sombra da Ramada – Poesia (1987); Raqueteada de Trovas – Harmonia de Dois Cantos, em parceria com Adines Gavião (1996).


“ESTÂNCIA DA POESIA CRIOULA


Recordo aquela noite de invernia,

de encontros sorridentes e de abraços,

voto e presença de uma Academia

já ensaiando os primeiros passos.


Em cada coração que se expandia,

acendendo luzeiros nos espaços,

jorrava, aos borbotões, tema e poesia

na cadência pampeana dos compassos.


E foram desfilando os pajadores,

artífices do verso, contadores

das nossas lendas, das consagrações...


E a Estância da Poesia, enriquecida,

cultuando os ideais da arremetida,

gravou nas letras as nossas tradições!


Colaboração: Poeta Cândido Brasil 




sábado, 19 de fevereiro de 2022

REPONTANDO DATAS

 

                                        A POESIA DE AMÂNDIO BICCA 

Hoje a Estância da Poesia Crioula homenageia um de seus fundadores, o poeta regionalista Amândio Bicca Quintana, nascido em Las Piedras (Canelones), Uruguai, em 07 de setembro de 1912 e falecido em Porto Alegre no dia 19 de fevereiro de 1990. 

 

SAUDADE

(Autor: Amândio Bicca Quintana)

                          

Saudade é armada de laço

que aos poucos vai apertando,

enquanto a gente sonhando

com a liberdade passada,

não sente o aperto da armada

que aos poucos nos vai matando.

 

É tapera abandonada

no fundo de algum rincão.

Saudade é água passada

que deixa valos no chão,

é cruz de angico cravada

no alto de um coxilhão.

 

Saudade é coice certeiro

do tordilho de confiança,

cornada de vaca mansa,

punhalada traiçoeira

que embora a gente não queira

deixa a marca por lembrança.

 

A brasita que se esconde

entre as cinzas do fogão

conserva quente o galpão

onde o passado se apeia.

Saudade é brasa vermelha

nas cinzas do coração.




quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

EPC PASSA A SER PRODUTORA CULTURAL

 

Um excelente notícia para os integrantes da Estância da Poesia Crioula e para os amantes da arte poética em geral. Ontem, dia 16, a entidade foi inscrita como produtora cultural no sistema Pró Cultura da Secretaria de Cultura do RS.

Num esforço de nosso Presidente Maxsoel Bastos de Freitas a EPC passará a ser produtora de seus próprios eventos e projetos com possibilidade de angariar recursos Públicos como o FAC, por exemplo, que no momento encontra-se com editais abertos. "Vamos, pela primeira vez, tentar subsidiar a nossa antologia", informou o Presidente.






 


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

 



PETIÇO     
Cyro Gavião

 
Esse petiço troncho que, ao passito,
Vem chegando co'a pipa, lá da fonte,
Foi quebra noutros tempos... foi bonito,
Foi mestre, num rodeio e num reponte.

Mas, hoje, nem o relho, nem o grito
Da gurizada já lhe altera a fronte
Indiferente a tudo, ao infinito,
A mais um dia que se lhe desconte.

Até dá pena ver esse sotreta,
Trocando perna, ao lado da carreta
Num caminhar tristonho, passo a passo...

Petiço velho,... jóia do meu pago!
Saudade amarga que, comigo, trago,
Espera,...qu'eu também sinto cansaço.


sábado, 29 de janeiro de 2022

GAÚCHO

 

Gravura: Rodolfo Ramos 



Fragmentos do poema GAÚCHO  de Antônio Augusto Fagundes  


Os moços de Porto Alegre

- escritores, jornalistas,

aqueles que sabem tudo,

ou pensam que sabem tudo...

disseram que já morreste.

Ou então que estás de a pé,

sem cavalo, sem bombacha,

sem bota, espora ou chapéu,

sem comida e sem estudo.

 

Moços da voz de veludo

e máquinas de escrever

produzidos no estrangeiro

dizem que tu, companheiro,

morreste ou estás mui mal

porque o êxodo rural

te atirou pelas sarjetas

sujo de pó e de barro

catando a toa cigarro

nos becos da capital...

 

E no entanto, estás vivo!

Estás vivo e trabalhando

e produzindo o que comem

esses moços do jornal.

 

Quem é gaúcho, afinal?



sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

JOÃO DA CUNHA VARGAS

 



João da Cunha Vargas nasceu em 28/12/1900 e não foi além das primeiras letras e, como ele mesmo costumava dizer, não era ‘muito manso de livros’. Certamente aprendeu os segredos que nos conta ao ranger dos bastos e no tranco das tropeadas, talvez por isso sua poesia mais que repete o que o povo diz, ela tem uma inscrição pessoal poucas vezes vista.


DEIXANDO O PAGO

 

Alcei a perna no pingo

E saí sem rumo certo

Olhei o pampa deserto

E o céu fincado no chão

Troquei as rédeas de mão

Mudei o pala de braço

E vi a lua no espaço

Clareando todo o rincão.

 

E a trotezito no mais

Fui aumentando a distância

Deixar o rancho da infância

Coberto pela neblina

Nunca pensei que minha sina

Fosse andar longe do pago

E trago na boca o amargo

Dum doce beijo de china.

 

Sempre gostei da morena

É a minha cor predileta

Da carreira em cancha reta

Dum truco numa carona

Dum churrasco de mamona

Na sombra do arvoredo

Onde se oculta o segredo

Num teclado de cordeona.

 

Cruzo a última cancela

Do campo pro corredor

E sinto um perfume de flor

Que brotou na primavera

À noite, linda que era

Banhada pelo luar

Tive ganas de chorar

Ao ver meu rancho tapera.

 

Como é linda a liberdade

Sobre o lombo do cavalo

E ouvir o canto do galo

Anunciando a madrugada

Dormir na beira da estrada

Num sono largo e sereno

E ver que o mundo é pequeno

E que a vida não vale nada.

 

O pingo tranqueava largo

Na direção de um bolicho

Onde se ouvia o cochicho

De uma cordeona acordada

Era linda a madrugada

A estrela d'alva saía

No rastro das três marias

Na volta grande da estrada.

 

Era um baile, um casamento

Quem sabe algum batizado

Eu não era convidado

Mas tava ali de cruzada

Bolicho em beira de estrada

Sempre tem um índio vago

Cachaça pra tomar um trago

Carpeta pra uma carteada.

 

Falam muito no destino

Até nem sei se acredito

Eu fui criado solito

Mas sempre bem prevenido

Índio do queixo torcido

Que se amansou na experiência

Eu vou voltar pra querência

Lugar onde fui parido.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

 

NASCE O POETA CYRO GAVIÃO

 
Num dia 07 de janeiro, do ano de 1913, nascia em Itaqui Cyro Gavião, autor do livro Querência Xucra e de dezenas de poemas espalhados por este Rio Grande velho. Foi membro da Estância da Poesia Crioula. Faleceu em Porto Alegre, onde morava, no ano de 1976. Abaixo uma de seus belos poemas intitulado:

 
PETIÇO      
Cyro Gavião

 
Esse petiço troncho que, ao passito,
Vem chegando co'a pipa, lá da fonte,
Foi quebra noutros tempos... foi bonito,
Foi mestre, num rodeio e num reponte.

Mas, hoje, nem o relho, nem o grito
Da gurizada já lhe altera a fronte
Indiferente a tudo, ao infinito,
A mais um dia que se lhe desconte.

Até dá pena ver esse sotreta,
Trocando perna, ao lado da carreta
Num caminhar tristonho, passo a passo...

Petiço velho,... jóia do meu pago!
Saudade amarga que, comigo, trago,
Espera,...qu'eu também sinto cansaço.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

HOJE É DIA DOS SANTOS REIS

 

No flagrante acima, Paixão Côrtes e Os Três Xirus (Leonardo tocando tambor a esquerda, Elmo Neher ao violão e Bruno Neher com o acordeom) numa cantiga de reses.


Folia de Reis é um festejo de origem portuguesa ligado às comemorações do culto católico do Natal, trazido para o Brasil ainda nos primórdios da formação da identidade cultural brasileira, e que ainda hoje mantém-se vivo nas manifestações folclóricas de muitas regiões do país.

Na tradição católica, a passagem bíblica em que Jesus foi visitado por reis magos, converteu-se na tradicional visitação feita pelos três "Reis Magos", denominados Melchior, Baltasar e Gaspar, os quais passaram a ser referenciados como santos a partir do século VIII.

Fixado o nascimento de Jesus Cristo a 25 de dezembro, adotou-se a data da visitação dos Reis Magos como sendo o dia 6 de janeiro que, em alguns países de origem latina, especialmente aqueles cuja cultura tem origem espanhola, passou a ser a mais importante data comemorativa católica, mais importante, inclusive, que o próprio Natal

Mas como se compõe e qual a função do Terno de Reis?

Segundo o folclorista Paixão Côrtes, é variável o número de participantes de um "terno" pois nem sempre os cantadores são também instrumentistas, e isto obriga a uma maior divisão de funções. No geral, não vai além de oito pessoas: o mestre ou guia e o ajudante de mestre; contramestre e ajudante de contramestre; o tipe; o tambor; o triângulo e a rabeca. O mestre, que é o diretor, deve não só ser um bom repentista como também um bom conhecedor da história do nascimento de Jesus, principalmente no que se refere à visita dos Reis Magos. É o mestre (em primeira voz) que inicia o canto acompanhado de seu ajudante (em segunda voz); o verso é então repetido pelo contramestre e seu ajudante, também em primeira e segunda voz, respectivamente. O tiple ou tipe ou ainda tipi, é ordinariamente uma criança que se encarrega de cantar as firmatas características do segundo e do quarto verso de cada estrofe ou somente deste último. Podem existir um ou dois tipes em cada terno. Sobre esta figura assim se expressou o folclorista Mário de Andrade: "A mim me parece que o quipe que 'faz o contracanto' é o mesmíssimo 'tiple', também 'tipe' pela nossa gente folclórica, palavra de terminologia musical espanhola que nomeia o soprano (se trata dum menino) muito generalizada nas cantorias brasileiras para indicar uma voz subalterna.

Embora raro, encontramos o terno acompanhado de pau de fita, boizinho, bumba-meu-boi etc., então com suas representações coreográficas algo dramáticas, lembrando um rancho definido por Mário de Andrade. Aparecem também por vezes homens vestidos de mulheres, bem como os arcos de flores das "jardineiras", os cavalheiros, os porcos, caiteto, uma verdadeira bicharada.

Letra e música

As estrofes de nossos ternos de Reis, são quadrinhas na maioria das vezes de feitura popular, heptasílabas que narram episódios referentes ao nascimento de Cristo. Podemos classificá-las como religiosas e profanas. As primeiras são aquelas que no seu conteúdo mantêm bem vivo o motivo cristão das comemorações da Bíblia. As profanas são as que fogem ao tema do ciclo natalino religioso. Mas antes desta narração encontram-se os versos de chegada ou de saudação, à porta da casa. Os versos compreendem vários ciclos: anterior ou véspera de 25, dia de Natal, de 25 à 1º do ano e de 1º de janeiro ao dia de Reis. As estações são cantadas de acordo com o decorrer dos dias, e obedecem as seguintes principais frases: Chegada, Entrada, Louvação, Peditório, Agradecimento e Despedida.

Cada terno tem mais ou menos decorado um número grande de versos, podendo no entanto "o mestre" acrescentar improvisos que a situação exigir.

São numerosas as melodias existentes. Variam de região para região. Talvez os tipos de instrumentos musicais acompanhantes tenham contribuído para o surgimento dessas variedades. Em nossas pesquisas registramos inúmeras "toadas". As melodias geralmente apresentam duas partes distintas: uma bastante lenta, corresponde aos versos cantados; a outra somente tocada, no geral caracteriza-se por uma aceleração do ritmo.

A seguir damos um exemplo da maneira de como é "tirado" um verso pelos cantores:

Cantam: mestre e seu ajudante

Os três Reis por serem Santos
Os três Reis por serem Santos
Se puseram a caminhar

Repetem: contramestre e seu ajudante

Os três Reis por serem Santos
Os três Reis por serem Santos
Se puseram a caminhar

Cantam: mestre e seu ajudante

Procurando Jesus Cristo
Procurando Jesus Cristo
Em Belém foram encontrar

Repetem: contramestre e seu ajudante

Procurando Jesus Cristo
Procurando Jesus Cristo
Em Belém foram encontrar

Em outros ternos, porém, cantam os "reses" quadrinha por quadrinha; assim como as melodias, as maneiras de cantar são também distintas.

Geralmente eles terminam o verso bem "choroso", acrescentando "oi"...

Instrumentos

Os instrumentos musicais que podem considerar como tradicionais são: viola, rabeca, gaita, violão, tambor ou caixa de triângulo.

Comum outrora era a parceira da viola com a rabeca acrescida quase sempre de tambor ou triângulo. Na falta deste último um estribo de meia picaria é também usado.

Atualmente a gaita tomou conta da parte musical, fazendo-se acompanhar do violão e não raro de pandeiro, chocalho e cavaquinho.

Visita

Em traços gerais a visita dá-se da seguinte maneira: no terreiro da casa, o "terno" tendo a frente o "mestre" e o "ajudante", faz em verso de "saudação" ao dono da residência, solicitando permissão para cantarem e ao mesmo tempo justificando-se da sua chegada:

Chegada

Agora mesmo chegamos
Na beira do seu terreiro
Para tocar e cantar
Licença peço primeiro

Entrada

Se o proprietário concorda — geralmente muito satisfeito e feliz — abre a porta, convidando o mestre e seus cantadores para passarem. Existe mesmo uma certa tradição que consiste em o proprietário aguardar alguns versos para no caso positivo de receber o terno, acender as luzes da casa.

Porta aberta, luz acesa
Sinal de muita alegria
Entra eu, entra meu terno
Entra toda a companhia

Na saída, após muita cantoria, os cantores e os familiares ficam de alma limpa pela visita que representa a presença do menino Jesus em seu lar.




quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

 



O BOLEADOR 
- Bernardo Taveira Junior - 


E o destro campeiro na fúria indomável,
seguindo o cavalo que vai a fugir,
as pedras meneia com braço de ferro,
enquanto as não deixa certeiras partir.

E a certa distância que mede co'a vista,
o impulso tenteia visando o bagual,
e após, lá consigo, contando com a presa,
desprende o seu tiro terrível, fatal!

E as pedras tremendas fungando no espaço,
lá vão zig-zigs formando no ar,
lá vão implacáveis cair como um raio
na frente do bicho que intenta escapar.

E as pernas das bolas o bicho mal sente
nas mãos lhe tocarem, priscando coiceia,
e quanto mais prisca, coiceia ariscado,
mais ele se enreda, nas bolas se enleia.

E os fortes campeiros que adoram proezas
soltaram mil vivas naquela amplidão;
Um tiro de bolas há muito não viam
com mais bizarria, com mais perfeição.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

O NATAL NA VISÃO DE PAIXÃO CÔRTES

 




O saudoso folclorista João Carlos Paixão Côrtes sempre condenou as encenações natalinas nas quais o Papai Noel aparece vestido com trajes típicos gaúchos. 'Isso não existe', cutucava o historiador que, junto com Barbosa Lessa, é responsável pela maior garimpagem de temas folclóricos e populares do Rio Grande do Sul, incluindo danças, culinária, trajes e instrumentos musicais.

A figura do velhinho surgiu no Rio Grande do Sul após a 1ª Guerra Mundial, baseada em um santo (São Clauss para os nórdicos europeus) da Igreja Católica. 'Foi criado pelo desenhista Tomas Nast, que se inspirou em um poema de seu compatriota norte-americano Clemente Clark Moore.' Dizia Paixão Côrtes: a indústria comercializa e profaniza essa figura. 'Nast deu-lhe forma, traços e cores, restaurou a cor vermelha da roupa do velho bispo Nicolau e acrescentou uma capa também rubra. O caricaturista inventou um gorro vermelho e, mais tarde, a roupagem de inverno foi simplificada para um gibão, uma espécie de calça abombachada.

De acordo com o folclorista, os organizadores dos eventos precisam valorizar o Natal tipicamente gauchesco, abandonando pinheiros europeus, trenós e roupas de lã. 'O verdadeiro Natal Gaúcho é uma festa da família, onde se comemora o nascimento de Cristo diante de um presépio, representativamente, com a presença do Menino Jesus na manjedoura, com burrico, vaquinha, ovelha, cânticos fundamentados em mensagens de um cristianismo puro e singelo, anunciando a chegada dos Reis Magos', ensina o pesquisador.

Paixão criticava nomes utilizados em algumas encenações como 'Guri de Nazaré' ou 'Prenda do Céu'. Querem agauchar a religião'Sempre que se aproxima o fim do ano, vejo entristecido que a querência vai se deixando envolver, mais pelas fantasias das luzes da cidade, pela ambição de um certo comércio, sedento de grandes lucros. Refiro-me ao PAPAI NOEL e ao NATAL. 

Aliás, da América Latina, é, mais frequente no Brasil, que aparece a figura, misto de "Lucifer-santo", atemorizando as crianças travessas e faltosas, prometendo-lhes varas de marmelo e, quase ao mesmo tempo, com um saco de brinquedos às costas, estende a mão aos guris comportados, oferecendo-lhes "bondosamente" presentes. Na maioria dos demais países sul-americanos, não encontramos Papai Noel distribuindo presentes no Natal, como acontece em nosso país.

A verdadeira tradição natalina rio-grandense é aquela em que se comemora o dia do nascimento de Cristo, diante de um presépio, com Menino Jesus na manjedoura, com burrico, vaquinha, ovelha, cânticos, anunciando a chegada dos Reis Magos...  Este é o verdadeiro NATAL GAÚCHO Festa da família. "Dia de Navidad" como denominam os países de língua espanhola na América do Sul.  Qual a razão do renascimento do culto de uma árvore, tão difundido entre os povos mais primitivos? De onde é, este tipo de pinheiro, estranho ao nosso, que se desenvolve em determinadas regiões do Brasil?

Imaginem só! No mais forte do verão, aqui, um Papai Noel vestido com grossas roupas de lã, capuz, todo respingado de neve, descendo, de botas, de uma chaminé ou sentado em um trenó, puxado por gamos...  Velinhas e bolinhas coloridas completam os enfeites das mesas onde são servidas nozes, tâmaras, torrones, chocolates, ameixas secas, passa, etc, alimentos de alto teor calorífico, próprios para o inverno, em pleno clima europeu...  Tudo isso num país tropical como o Brasil!!!

Entretanto, tentemos encontrar, na história universal das festividades natalinas, algumas explicações para o surgimento de certos acontecimentos, hoje vividos em muitos rincões do mundo.

O nosso homem do campo desconhece as comemorações do natal à maneira como hoje são usuais nas cidades, como uma árvore de neve, enfeitada, e de presentes ansiosamente esperados, com um Papai Noel atemorizando os guris travessos ou fazendo elogios ao bom filho. Isto não quer dizer que no campo os homens tenham se esquecido das mensagens cristãs de Natal, a entrada do Ano Novo e o Dia de Reis. Se o dia primeiro de janeiro é festivamente assinalado por um churrasco e "ressacas", não menos vibrantes são os festejos de Natal, com os "Ternos de Reis" - grupos musicais que anunciam, de rancho em rancho, de casa em casa, o nascimento do Salvador.

O objetivo desta visita varia de um terno para outro: alguns visam unicamente louvar a memória de Jesus Menino; outro terno visa propiciar aos cantadores uma doce retribuição ao desgaste de suas cordas vocais, através de fartos comes e bebes que os donos da casa nunca se esquecem de oferecer. Finalmente, há aqueles que, oprimidos pelas necessidades materiais que muitas vezes afligem nossos trabalhadores rurais, saem "pedindo os reis", na certeza de que ao menos no campo ainda não se esqueceram de toda as lições de fraternidade que Cristo legou aos nossos homens de bem.


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

PADRE PAULO ARIPE, O "POTRILHO".

 

Foto rara do Padre Paulo Aripe


Há poucos dias nosso blog postou uma matéria sobre os Padres Poetas. Dentre estes, talvez um dos mais destacados tenha sido o Padre Paulo Aripe, mais conhecido como o Potrilho. Membro fundador da Estância da Poesia Crioula, Paulo Aripe foi coautor, em parceria com o Bispo Dom Felipe de Nadal, da conhecida Prece do Gaúcho. Excelente poeta também consagrou-se ao ministrar missas crioulas, principalmente na região de Alegrete. 
 


segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

FUNDO DE INVERNADA

 


(Silvio Aymone Genro)



Fundo de Invernada

Fim de caminho,
Fundo de invernada;
Lugar onde o tempo demora a passar...
Asilo do pago,
Cemitério de ossadas,
Daqueles que esperam sua hora chegar.

Onde os touros velhos
Remoem silêncios
E a solidão se esconde entre os caraguatás...
Os pássaros pousam
No lombo do gado
E até as diferenças convivem em paz.

Fundo de invernada,
Retiro esquecido,
Dos matungos velhos e sem serventia...
Onde a liberdade
É uma conquista inútil
De quem, preso às rédeas, já foi livre um dia.

Que estranho é o destino
Que leva a nós todos,
Pelo mesmo rumo que conduz ao nada...
E ao final da vida,
Bichos e gentes,
Acabam no fundo da mesma invernada.

Quando nosso mundo
Se cansa de nós
E condena todos ao mesmo abandono,
A própria esperança
Envelhece com a idade
E até da saudade não somos mais donos.

Fundo de invernada,
Rumo sem volta,
Onde os calendários negam-se a contar...
E as flores do campo
Enfeitam-se inúteis,
Pra os que já perderam o encanto do olhar.

Universo a parte,
Onde seca a poesia
E a lua no céu é uma lua, somente...
E até os por de sóis
Vão desbotando aos poucos,
Perdendo suas cores de antigamente.

Fundo de invernada,
Final de caminho,
Lugar onde cresce silêncio e capim...
Exílio daqueles
Que ficam sozinhos,
Último pouso antes do fim.


domingo, 19 de dezembro de 2021

OS PADRES POETAS

 

Como hoje é domingo mas não temos missa presencial, vamos falar um pouco sobre alguns padres versejadores da cultura gaúcha.  Os vates sacerdotes. Eu conheci quatro, mas deve ter bem mais. O Padre Paulo Aripe, o Potrilho do Alegrete, o Bispo Dom Luiz Felipe de Nadal, Amadeu Gomes Canellas, ainda entre nós, e o Padre Pedro Luis, autor do livro O Gênio do Pampa, obra que guardo na cabeceira de meu catre. Todos integrantes da Estância da Poesia Crioula. 




Pedro Luis Bottari nasceu no interior de Santa Maria no dia 29 de junho de 1905 e faleceu e ali no dia 23 de agosto de 1983. Segundo consta à página 28 do livro Italianos no Brasil: Contribuições na Literatura e nas ciências: séculos XIX e XX, de Antônio Mottin e Enzo Casolino (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999) publicou as seguintes obras: Modelo de Mãe ou Vida da Beata Ana Maria Taigi, em 1933; Cabriúna, poema, em 1950; O monumento, poema, em 1951; O Gênio do Pampa, poema cíclico do Rio Grande, em 1958; O diamante negro de Canoas – Tio Bastião Coelho, biografia, em 1960, e Pedro Tropeiro, poemeto, em 1971.

Religioso da Congregação de São Vicente Pallotti, exerceu suas atividades sacerdotais em diversas cidades, como Santa Maria, Cruz Alta e Porto Alegre, sempre se destacando nas comunidades onde viveu, tanto pelo seu ativismo como sacerdote como pelas iniciativas culturais.

Durante a fundação da Estância da Poesia Crioula salientou-se pelas intervenções, todas fiéis aos princípios preconizados pela Igreja Católica, e pelas preocupações com a preservação da memória histórica e cultural do Rio Grande do Sul. Tenho do poema O Gênio do Pampa – Poema Gaúcho a terceira Edição (Santa Maria: Livraria Editora Pallotti, s/d), com IMPRIMATUR datado de 25 de abril de 1958.

O Padre Pedro Luis conta no prefácio que escreveu para O Gênio do Pampa, que seu amor pelo Rio Grande nasceu quando, ainda menino, “mercadejava por Val de Serra os frutos da terra e outras traquitandas, cada semana”, ao lado do seu pai. Lembra as figuras dos negros “Dorotéio”, cujo verdadeiro nome era Doroteu, e de “siá Maria José de Oliveira, vulgo Maria Doceira – pau de coronilha, seu! – velha escrava do General Firmino de Paula”. Foi nesse ambiente campestre, entre a Serra e a Campanha, que se plasmou a personalidade lírico-épica do futuro poeta.

Sobre o Padre Luis Bottari, pesa, ainda, a influência de D. Aquino Correia (1885-1956), que pertenceu à Academia Brasileira de Letras, de 1926 até seu falecimento, como titular da Cadeira 34. O Arcebispo de Cuiabá, durante várias décadas, se tornou modelo para inúmeros poetas que passaram pelos seminários católicos, contribuindo para consolidar a influência parnasiana.

O Gênio do Pampa é a história do Rio Grande do Sul em versos. As notas que Padre Pedro Luis apõe aos seus versos demonstram um profundo conhecimento da historiografia sul-rio-grandense, até meados da década iniciada em 1950. O poema é todo escrito em redondilha maior (sete sílabas métricas), como a grande maioria da gauchesca.

Entretanto, enquanto os demais poetas do subgênero acentuam, mormente, na quarta e sétima sílabas, o poeta santa-mariense o faz na terceira e na sétima sílabas, o que confere um ritmo mais lento no seu versejar. Isso dá a impressão de que seus versos têm mais sílabas métricas do que apresentam. Trata-se de recurso, tipicamente “parnasiano”, para aproximar a redondilha do decassílabo, metro tradicional da poesia épica, apenas perceptível aos conhecedores das técnicas de versificação. Por outro lado, a maior parte do “Poema Gaúcho” é dividida em pequenos poemas, outra demonstração do domínio do poeta sobre a arte da versificação.

Poema do Padre Pedro Luis, que consta às páginas 127 e 128 de O Gênio do Pampa.

O PIÁ DA ESTÂNCIA

Mora um piá em cada estância,
Piá de marca primitiva,
Que na vida, desde a infância,
Só vê triste perspectiva.
Mártir de aspas e terneiros,
Anda sempre em roda viva,
Como os zainos tafoneiros.

Vai descalço. Aberto o peito
Da camisa, nada zela;
De chapéu tapeado a jeito;
Calça lôbrega e amarela.
Letras, zero; lume, escasso;
Fuma oculto, com cautela,
E usa à cinta um palmo de aço.

Galopim de cem recados,
Guarda de almas, cusco e aves,
Sofredor de maus bocados;
Cria espúria de ares graves;
Corre à voz que grita e espinha;
Ceva o mate atalha entraves,
E resmunga na cozinha.

Velha vítima dos gritos,
Sonha um lenço colorado;
Traz os ecos dos aflitos,
E, qual fungo de silvado,
Cresce à toa e na desgraça,
Mas já pensa, consolado,
Desquitar-se na cachaça.

Órfão de almas, sem afeto,
Sem perfume de linguagem,
No galpão está sem teto,
Junto aos cães, que não reagem.
Come a um canto a vil merenda...
Flor crioula da paisagem,
Vive à margem da fazenda.